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A Alma do Negócio

2019 de Janeiro, 24 | Crônicas de Balcão

Uma colega advogada, também proprietária de restaurante, postou que no seu horário de almoço sai do escritório e veste a touca para atender mesas. Com saudável desprendimento, ela contribuiu para desmistificar a ideia (um tanto tupiniquim) de glamourização do trabalho, essa gente que diz “ah, isso eu não faço”, quando qualquer trabalho já é digno pela sua simples utilidade e pela dedicação de tempo e esforço de quem o executa.

Lembrei-me de uma cena. Eu estava dando aula na pós-graduação de Direito Contratual na faculdade. No intervalo, alunos se aproximam para comentários e perguntas. Uma estudante veio a mim intrigada: professora, eu a conheço de algum lugar - por acaso você não atende na padaria Sabor de Luna? Sim, querida, atendo. E ali me dei conta da peculiar situação.

Todo dia, ao terminar meus afazeres como advogada, vou para nossa pequena padaria e confeitaria atender no balcão. Lavo louça, sirvo café, retiro lixo, converso com clientes. Com três diplomas de especialização, mestrado, doutorado, e fluência em quatro idiomas, eu deveria estar numa suntuosa mesa de mármore, num gabinete com ar condicionado e carpete de 5 cm de altura, bem longe de qualquer balcão, certo? Errado!! Eu deveria estar onde eu me sinto bem, em primeiro lugar. E, em segundo: fazendo o melhor para o negócio.

No nosso caso (que buscamos valorizar o prazer e a memória afetiva através do alimento), é essencial estar presente, conectar-se com o público, ouvir os clientes. Sabe-se que as pequenas empresas (principais geradoras de riqueza no comércio brasileiro, com 54% do PIB do setor), praticam a leitura intuitiva do mercado, sendo que a relação próxima com sua clientela é uma grande vantagem competitiva. Corporações lutam para ter esse relacionamento direto, mas, como já passaram para o nível do marketing burocrático, perderam a proximidade com o consumidor (sic Stokes).

O que tenho aprendido na lida do balcão não é pouco. Além de ser uma participação útil (“corte sua própria lenha, assim ela aquecerá você duas vezes”, Henry Ford), só eu sei o quanto consigo melhorar a dinâmica do negócio presenciando o funcionamento interno, vivendo pessoalmente a realidade do dia a dia.

Sem falar no prazer que é interagir com o respeitável público. Ouvir suas histórias, acompanhar o crescimento dos seus filhos, conhecer seus cachorros. Participar da vida do bairro.

E, em plena época de crise (financeira e moral), produzir e entregar às pessoas pequenos prazeres cotidianos: medialunas crocantes com café, uma caprichada torta com chá. Tudo descomplicado e saboroso como a existência deve ser.

A diferença entre o pequeno e o grande negócio está também na forma como você se relaciona espiritualmente com ele. Se há entrega, se há aposta, se há sentido, pode ter certeza: é um baita negócio.

 

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