Quem Somos

O Menino e o Livro

2019 de Janeiro, 24 | Literatura de Balcão

“(…) por encima de sus pecas, contemplaba el mundo
con una sonrisa de satisfecha comprensión.”
(Benedetti)

Dia desses, atendi uma cliente que chegou com o filhinho de cinco anos. Curiosamente, mesmo em meio a doces e chocolates o garoto foi atraído pelo livro de contos de Mario Benedetti, que fica por ali, numa prateleira baixa. Ele segurou o livro, sentou-se num banco, e ficou folheando aleatoriamente enquanto a mãe fazia compras.

De longe percebi que ele não lia efetivamente - provável que ainda não fosse alfabetizado, além disso, o livro estava em espanhol. Mas o menino seguiu absorto, totalmente conectado com a coisa – numa relação atávica que vale mais que palavras.

Aproximei-me e elogiei: “que bonito, um leitorzinho” – e tentei resumir um dos contos, mas ele não se interessou. Estava num transe individual. Seguiu fixado nas páginas como quem busca um espanto próprio. Como quem brinca de caçar Pokémon, só que na década de quarenta.

Lembrei-me que Benedetti não teve filhos, nem escreveu para crianças. Mas que, com sua simplicidade, foi o poeta de língua espanhola que logrou plena relação com os leitores oferecendo palavras fáceis para expressar sentimentos complexos como o amor, o tempo, a melancolia. Me ocorreu que talvez Benedetti nem almejasse que o menino lesse a obra - bastaria, como faziam os pequenos personagens de “Los Novios”, que imaginasse o significado das manchas de cal nas paredes do refúgio: “la cara de um viejo contrabandista, el perfil de um perro sin orejas, la proa de um bergantín.” (Montevideanos, pág. 129).

Ao final do dia fui fechar a loja e não encontrei o livro. Telefonei para a cliente a fim de checar se o menininho não teria inadvertidamente levado consigo o encantado objeto. A mãe do garoto disse que, ao sair, o filho “escondeu” o livro debaixo de outras publicações, com uma marcação de guardanapo numa página aleatória, para terminar de “ler” quando voltasse.

Baixei os olhos e corei em silêncio. Era óbvio. O sábio leitorzinho havia criado sua própria história e por certo viveria os próximos dias pensando em como terminá-la até retornar à loja novamente. O livro foi a plataforma da sua imaginação, o convite à fantasia, a porta de entrada para o reino da criação. E eu ali, insensível como um leão de chácara.

Lamentei meu curto alcance da situação. Mas também libertei um suspiro longo e grato diante do aprendizado de Benedetti: “De eso se trata, de coincidir con gente que te haga ver cosas que tú no ves. Que te enseñen a mirar con otros ojos” (Benedetti, 2008).

Gracias, Mario. Muchas gracias.

 

VOLTAR
Veja

Também

6 Años

​Um negócio não é apenas um negócio. Nunca é.

SAIBA MAIS

Buongiorno

Esses dias atendi na nossa confeitaria um turista italiano. Ele não falava um ovo de português, mas tinha aquele olhar eloquente, típico do descobridor de sabores internacionais.

SAIBA MAIS