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Buongiorno

2019 de Janeiro, 24 | Literatura de Balcão

Esses dias atendi na nossa confeitaria um turista italiano. Ele não falava um ovo de português, mas tinha aquele olhar eloquente, típico do descobridor de sabores internacionais.

Ofereci ajuda em inglês e francês, mas acabamos nos entendemos na língua do sorriso e do dedo indicador.

Na hora de pagar ele puxou as notas e, para completar o valor em moedas, esticou o braço em minha direção e abriu a palma disponibilizando-me todos seus vinténs no modo "sirva-se".

Pedi licença e catei na palma da sua mão a quantia devida. Imediatamente sorri ao perceber que pratico essa estratégia com a mesma desproteção do italiano quando estou em terra estranha.

Trata-se, aliás, de hábito comum de viajante, por vezes até necessário, já que juntar centavos de yen em Tokio, e coroas tchecas em Praga, é aventura de resultado imprevisível.

Acho que são raras as pessoas que dominam logo os diferentes formatos de moeda e seus valores. Por outro lado, ninguém haverá de puxar uma tabela do bolso e perder minutos identificando efígies, dísticos e inscrições enquanto a fila espera e a vida anda.

Mas foi ali, com o italiano, que me dei conta da colossal beleza da ação.

Tão longe de casa, tão alienígena, o singelo gesto contém, no fundo, uma rendição. Um sinal de entrega do forasteiro ao cidadão local. A humildade do visitante quando entra em casa alheia. O reconhecimento do desconhecido.

A clássica mão do turista esticada ao vendedor em confiança, com uma farta concha de centavos brilhando como quem diz “pegue aqui o que lhe cabe", é bem mais do que um pedido de ajuda na seleção do troco.

É uma ponte direta entre nações, a abertura inquestionável das fronteiras, um forte aperto de mão da paz.

 

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